O início de uma nova história
Muito antes de Três Lagoas tornar-se uma referência nacional em desenvolvimento econômico, indústria e empreendedorismo, esta região era habitada pelos Ofaié, povo indígena pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê. Exímios caçadores, pescadores e coletores, os Ofaié ocupavam uma vasta área entre os rios Paraná e Sucuriú, vivendo em estreita relação com o Cerrado e os recursos naturais da região. Durante séculos, foram os únicos habitantes dessas terras, até a chegada das primeiras frentes de colonização no século XIX.
A partir da segunda metade do século XIX, fazendeiros, sertanistas e pioneiros vindos principalmente de Minas Gerais e São Paulo passaram a ocupar a região. Entre eles destacam-se Luís Correia Neves Neto, Antônio Trajano dos Santos e Protázio Garcia Leal, considerados os principais responsáveis pela ocupação do território que daria origem ao município de Três Lagoas. Cada um estabeleceu propriedades em diferentes pontos da região, impulsionando a criação de gado, a abertura de caminhos e a formação dos primeiros núcleos de povoamento.
Foi Antônio Trajano dos Santos quem deu notoriedade à Fazenda das Alagoas, assim denominada pelas três grandes lagoas existentes na região. Esse conjunto de lagoas acabaria dando nome ao futuro município e se tornaria um dos maiores símbolos da cidade.
Os trilhos que mudaram o destino da região
O verdadeiro marco da transformação econômica e urbana ocorreu com a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Projetada para integrar o interior do país aos grandes centros econômicos, a ferrovia chegou à região em 1909, quando foram instalados os primeiros acampamentos dos engenheiros responsáveis pela obra às margens da atual Lagoa Maior. Em torno desses acampamentos surgiram moradias, armazéns, oficinas e pequenos estabelecimentos destinados ao atendimento dos trabalhadores, formando o embrião da futura cidade.
Percebendo o potencial daquele novo núcleo urbano, Antônio Trajano dos Santos doou parte de suas terras para a formação do povoado. O traçado urbano foi elaborado pelo engenheiro Oscar Guimarães, enquanto Justino Rangel de França executou a demarcação das primeiras ruas e quadras.
Com a ferrovia, Três Lagoas passou a integrar uma das mais importantes rotas logísticas do país. Vagões transportavam pessoas, mercadorias, máquinas, alimentos, medicamentos e equipamentos que impulsionavam o crescimento econômico da região. Da mesma forma, a produção agropecuária local passou a alcançar mercados cada vez mais distantes.
A consolidação desse corredor ferroviário ocorreu com a construção da Ponte Ferroviária Francisco Sá, sobre o Rio Paraná, importante obra de engenharia que fortaleceu a ligação entre o então Estado de Mato Grosso e o Estado de São Paulo, ampliando o fluxo de pessoas, mercadorias e investimentos.
O nascimento de Três Lagoas
O crescimento proporcionado pela ferrovia acelerou o processo de urbanização. Em 15 de junho de 1915, Três Lagoas conquistou sua emancipação política, tornando-se município. A cidade ainda era pequena, mas já demonstrava uma extraordinária vocação para o comércio. A estação ferroviária transformou-se no principal ponto de encontro entre produtores rurais, comerciantes, ferroviários, viajantes e novos moradores que chegavam diariamente em busca de oportunidades.
Ao redor da estação instalaram-se as primeiras casas comerciais, hotéis, farmácias, armazéns, alfaiatarias, ferragens, oficinas e estabelecimentos de secos e molhados. O comércio tornou-se rapidamente um dos pilares da economia local, acompanhando o crescimento da cidade e contribuindo para a formação de uma sociedade empreendedora.
Egídio Thomé: o homem que uniu os comerciantes
Entre os pioneiros que ajudaram a construir essa nova Três Lagoas, um nome ocupa lugar de destaque: Egídio Thomé. Proprietário da tradicional Casa Barateira, Egídio Thomé destacou-se não apenas pela atividade comercial, mas também por sua capacidade de liderança e visão de futuro. Em uma cidade que ainda dava seus primeiros passos, compreendeu que o crescimento econômico exigia união entre os empresários e uma instituição capaz de representar coletivamente os interesses do comércio.
Naquele momento, Três Lagoas tinha apenas onze anos de emancipação política, mas já possuía um comércio suficientemente dinâmico para exigir organização, diálogo com o poder público e defesa permanente dos interesses da classe empresarial. Essa percepção demonstra a visão estratégica dos comerciantes da época e explica por que a Associação Comercial foi criada tão cedo na história do município.
Ao lado de outros empresários locais, Egídio Thomé liderou a fundação da Associação Comercial de Três Lagoas, em junho de 1926, tornando-se seu primeiro presidente. Nascia uma entidade destinada a acompanhar, influenciar e participar diretamente do desenvolvimento econômico da cidade pelos cem anos seguintes.
Sua atuação foi imediatamente colocada à prova. Logo na primeira administração, diante do descaso das autoridades municipais em relação às reivindicações do comércio, Egídio coordenou um movimento histórico que culminou no fechamento do comércio local por 48 horas. A mobilização representou um marco na história do associativismo empresarial de Três Lagoas. As reivindicações dos comerciantes foram atendidas e a recém-criada Associação Comercial conquistou respeito, legitimidade e reconhecimento perante a sociedade e o poder público.
Mais do que um comerciante, Egídio Thomé deixou como legado uma visão que continua atual: a certeza de que o desenvolvimento econômico depende da união do setor produtivo, da representatividade institucional e da participação ativa da sociedade civil na construção do futuro.
Os primeiros passos da Associação Comercial
Após a gestão de Egídio Thomé, outros empresários deram continuidade ao fortalecimento da entidade. Bernardino Mendes, proprietário da Casa Portuguesa, assumiu a presidência em 1929 e conduziu a aquisição de um terreno na antiga Rua Coxim, atual Rua Dr. Munir Thomé, destinado à construção da primeira sede própria da Associação.
Na sequência, João Gonçalves de Oliveira, proprietário da Casa Oliveira, iniciou a construção da sede, permitindo que as reuniões deixassem de ocorrer nas dependências comerciais dos próprios presidentes. Poucos anos depois, durante a gestão de Nicolau José Rached, proprietário da Casa Moderna, a obra foi concluída, consolidando definitivamente a presença institucional da Associação Comercial na cidade.
Essas primeiras administrações estabeleceram as bases administrativas e patrimoniais da entidade, fortalecendo sua atuação como representante legítima do comércio três-lagoense.
Uma cidade preparada para crescer
Ao final da década de 1930, Três Lagoas já havia deixado de ser um pequeno povoado ferroviário para consolidar-se como um importante centro comercial do antigo Estado de Mato Grosso. A ferrovia continuava sendo o principal motor da economia, novas famílias se estabeleciam na cidade e o comércio expandia-se acompanhando o crescimento urbano.
Nesse cenário, a Associação Comercial tornava-se uma instituição indispensável para o fortalecimento do empreendedorismo local. A visão dos pioneiros, liderados por Egídio Thomé, estabeleceu os alicerces de uma entidade que atravessaria gerações, acompanhando cada grande transformação econômica de Três Lagoas e contribuindo, de forma decisiva, para a construção da cidade que hoje celebra cem anos de associativismo, desenvolvimento e cooperação empresarial.

