100 anos
construindo a história
de Três Lagoas
Poucas instituições brasileiras podem afirmar que estiveram presentes em todos os ciclos econômicos de uma cidade. A ACITL esteve. Dos trilhos da Noroeste ao Vale da Celulose, uma jornada centenária em seis ciclos.
Apresentação
100 anos construindo o desenvolvimento de Três Lagoas
Celebrar o centenário da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas (ACITL) é celebrar, também, a história do empreendedorismo, da coragem e da visão de futuro que ajudaram a construir uma das cidades mais prósperas de Mato Grosso do Sul.
Fundada em junho de 1926, por iniciativa de Egídio Thomé e de um grupo de comerciantes pioneiros, a então Associação Comercial de Três Lagoas nasceu com um propósito claro: representar os interesses do comércio local, fortalecer a união da classe empresarial e contribuir para o desenvolvimento da cidade. Desde seus primeiros anos, a entidade assumiu um papel de protagonismo, defendendo os comerciantes, promovendo o diálogo com o poder público e participando ativamente das principais transformações econômicas e sociais do município.
Ao longo de um século, Três Lagoas deixou de ser uma pequena cidade ferroviária para tornar-se um dos mais importantes polos econômicos do Brasil. A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, o fortalecimento da pecuária, a construção da Usina Hidrelétrica de Jupiá, a industrialização e, mais recentemente, a consolidação do Vale da Celulose marcaram diferentes ciclos de desenvolvimento, transformando profundamente a economia, a sociedade e a paisagem da cidade. Em todos esses momentos, a ACITL esteve presente, acompanhando, apoiando e impulsionando o crescimento do setor produtivo.
Este e-book foi concebido como uma extensão da Exposição Comemorativa dos 100 Anos da ACITL. Mais do que um catálogo da mostra, ele reúne fatos, documentos, registros históricos e relatos que ajudam a compreender como a trajetória da entidade se entrelaça com a própria história de Três Lagoas.
Organizado em sete grandes ciclos históricos, o conteúdo acompanha a evolução da cidade desde a chegada dos trilhos da ferrovia até os desafios e oportunidades do século XXI. Cada capítulo apresenta acontecimentos marcantes, personagens, instituições, fotografias, documentos e informações que evidenciam a importância da iniciativa privada na construção do desenvolvimento local.
Esta obra não pretende encerrar a história da ACITL. Ao contrário, representa mais um passo no compromisso de preservar a memória institucional, valorizar aqueles que dedicaram parte de suas vidas ao fortalecimento do associativismo e inspirar as futuras gerações de empreendedores.
Ao percorrer estas páginas, o leitor é convidado a revisitar momentos decisivos da história de Três Lagoas e a reconhecer que o progresso de uma cidade é resultado do trabalho coletivo, da união de pessoas e da capacidade de transformar desafios em oportunidades.
Que este material preserve a memória do passado, fortaleça o presente e inspire os próximos cem anos de desenvolvimento da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas e de toda a comunidade empresarial que ela representa.
Boa leitura!
Prefácio
“A história é testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida e mensageira da antiguidade.”
— Cícero
Fabrício Garcia do Nascimento
Vice-Presidente da ACITL
Há instituições das quais participamos. E há instituições que, com o passar do tempo, passam a participar de nós. A Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas pertence, para mim, a essa segunda categoria.
Quando atravessei pela primeira vez as portas da ACITL, em maio de 1997, eu iniciava uma etapa profissional. Não imaginava que aquele lugar permaneceria tão presente em minha vida. Cheguei para trabalhar, mas foi ali que aprendi, na prática, o significado do associativismo, da representação empresarial e da convivência com pessoas que, mesmo pensando de formas diferentes, desejavam o melhor para Três Lagoas.
Foram quase sete anos como secretário-geral e, depois, como consultor jurídico e assessor de diretoria. Guardo na memória o movimento diário da entidade, as reuniões que se prolongavam, os associados que chegavam com dúvidas, reivindicações e ideias, e a percepção de que muitos assuntos discutidos ali repercutiam para além das paredes da Associação.
Foi nesse cotidiano que compreendi algo que me acompanha até hoje: uma cidade não se desenvolve apenas por suas obras, seus investimentos ou seus indicadores econômicos. Ela se desenvolve quando pessoas decidem trabalhar juntas por algo maior do que seus interesses individuais.
A vida me conduziu a outras empresas, conselhos, instituições e entidades representativas. Em cada experiência, aprendi a ouvir posições diferentes, lidar com responsabilidades maiores e reconhecer que nenhuma liderança se sustenta sem diálogo e confiança. Ainda assim, conservei pela nossa ACITL um sentimento muito particular.
Aqui, sinto-me em casa.
Retornar à Associação como diretor e, hoje, exercer a vice-presidência tem um significado que ultrapassa qualquer título. É um reencontro com minhas origens profissionais, com pessoas que marcaram minha formação e com uma instituição que ajudou a moldar a maneira como compreendo o serviço à comunidade.
Por isso, escrever o prefácio desta obra é motivo de profunda emoção e sincera honra. Não estou apenas apresentando o livro comemorativo de uma entidade centenária. Estou escrevendo sobre uma instituição que também escreveu parte da minha história.
A trajetória da ACITL não pode ser separada da história de Três Lagoas. Ambas cresceram juntas, atravessaram ciclos econômicos, enfrentaram desafios e aprenderam a transformar dificuldades em oportunidades.
Antes dos trilhos, estas terras já guardavam a presença e a história do povo Ofaié. Depois, pioneiros participaram da ocupação do território e da formação dos primeiros núcleos de povoamento. Entre eles, esta obra registra Luís Correia Neves Neto, Antônio Trajano dos Santos e Protázio Garcia Leal.
A presença do nome Garcia Leal nas primeiras páginas da história três-lagoense possui, para mim, uma ressonância especial, porque também se entrelaça à minha própria história. Não a recebo como motivo de vaidade ou mérito transmitido por herança. A história não deve servir para reivindicar privilégios, mas para despertar responsabilidades. Pertencer a uma tradição significa honrar o que foi construído antes de nós e trabalhar para que as próximas gerações recebam uma cidade ainda melhor.
Voltemos, por um instante, a 1926.
O mundo ensaiava novas formas de comunicação, a aviação ultrapassava fronteiras antes consideradas inalcançáveis e a indústria alimentava a confiança no progresso. No Brasil, ainda predominantemente rural e dependente do café, crescia a percepção de que o desenvolvimento exigia infraestrutura, integração e organização.
Desde então, atravessamos uma transformação extraordinária. Saímos da caderneta, dos negócios firmados pela palavra e das relações restritas ao espaço físico para o cartão, o comércio eletrônico, as transações instantâneas e o Pix.
Se colocássemos frente a frente um comerciante de 1926 e um empresário de 2026, talvez eles inicialmente se estranhassem. Um falaria da ferrovia, da correspondência e do estoque anotado à mão. O outro, de plataformas digitais, inteligência artificial, proteção de dados e mercados globalmente conectados.
Depois de alguns minutos, porém, perceberiam que suas preocupações essenciais não eram tão diferentes. Ambos falariam sobre clientes, crédito, impostos, infraestrutura, concorrência, segurança jurídica e a necessidade de serem ouvidos pelo poder público. Reconheceriam que nenhuma empresa prospera isoladamente de sua comunidade e que a união dos empreendedores continua sendo uma das formas mais seguras de proteger o presente e construir o futuro.
Fico imaginando as primeiras reuniões da Associação Comercial: os cumprimentos formais, as roupas, os costumes, a linguagem e os debates daquele tempo. Mudaram os instrumentos e a velocidade das decisões. Permaneceu o compromisso de defender quem produz, comercializa, emprega e acredita em Três Lagoas.
E, falando em Três Lagoas...
A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1909, modificou o destino da região. Em torno dos trilhos surgiram casas, armazéns, oficinas, hotéis e estabelecimentos comerciais. Pessoas chegaram, mercadorias circularam, sonhos encontraram passagem e uma cidade começou a tomar forma.
Três Lagoas emancipou-se politicamente em 1915. Apenas onze anos depois, em junho de 1926, Egídio Thomé e um grupo de comerciantes pioneiros tiveram a visão de fundar a Associação Comercial. Em uma cidade ainda jovem, compreenderam que o desenvolvimento exigia organização, representatividade e união. O empresário isolado poderia ter voz; juntos, teriam força institucional.
A primeira diretoria logo foi colocada à prova. Diante da majoração de impostos municipais e da falta de resposta às reivindicações do comércio, a Associação liderou o fechamento dos estabelecimentos por 48 horas. A mobilização alcançou seus objetivos e fez com que a entidade passasse a ser respeitada e ouvida.
Um texto de 1934 registrou que a Associação possuía “força e prestígio moral” e recordou que “andorinha, só, não faz bom verão” e que “a união faz a força”. Uma ata de 1960 definiu o comércio e a indústria como verdadeiras “alavancas do progresso”.
Mudaram as ferramentas, os mercados e as dimensões da cidade. O princípio, entretanto, permanece: nenhum desenvolvimento duradouro é construído de forma solitária. Como ensinou Marco Aurélio, imperador romano e filósofo estoico, “o que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha”. Uma comunidade empresarial forte beneficia cada empreendimento; e cada empresário que participa fortalece toda a comunidade.
Ao longo de cem anos, a ACITL acompanhou cada grande transformação de Três Lagoas. Nasceu sob o som dos trens, consolidou-se com o comércio e a pecuária, atravessou a construção da Usina de Jupiá, modernizou seus serviços, participou da industrialização e acompanhou a formação do Vale da Celulose.
A cidade dos trilhos tornou-se cidade da energia, da indústria, da logística, dos serviços e da celulose. Em todos esses ciclos, a Associação esteve presente: ouvindo, representando, reivindicando, orientando e construindo pontes entre o setor produtivo, o poder público e a sociedade.
Este livro, portanto, não é apenas uma reunião de datas, fotografias, atas e nomes. É o registro de uma vocação coletiva. Algumas instituições acompanham a história. Outras ajudam a escrevê-la. A ACITL ajudou — e continua ajudando — a escrever a história de Três Lagoas.
Essa trajetória jamais poderia ter sido construída por uma única pessoa ou gestão. Cada presidente, diretor e conselheiro recebeu, por algum tempo, a responsabilidade de cuidar de um patrimônio coletivo e dedicou, de forma voluntária, conhecimento, relações pessoais, energia e horas que poderiam ter sido destinadas à própria vida profissional ou familiar.
Dirigir uma associação empresarial é ouvir interesses diferentes, buscar consensos, enfrentar incompreensões, dialogar com autoridades e tomar decisões cujos resultados nem sempre aparecem de imediato. É plantar árvores à sombra das quais, talvez, outros venham a repousar. A todos os dirigentes que passaram pela ACITL, deve ser tributado o reconhecimento desta geração.
Mas a razão maior da existência da Associação são os seus associados. São eles que legitimam a entidade, sustentam sua representatividade e mantêm vivo o espírito associativista. O associado não é apenas destinatário de serviços ou benefícios. É voz, fundamento e propósito. Uma associação é verdadeiramente forte quando seus membros não perguntam apenas o que podem receber dela, mas também o que podem construir por meio dela.
Há, ainda, um grupo pelo qual guardo especial carinho: os funcionários da ACITL, a quem gosto de chamar de associários.
Associário é aquele que não apenas trabalha na Associação, mas faz o associativismo acontecer todos os dias. É quem recebe o empresário, escuta suas necessidades, organiza documentos, viabiliza campanhas, executa projetos e transforma as decisões da diretoria em realidade. Sua atuação muitas vezes ocorre longe dos discursos e das solenidades, mas é essa dedicação cotidiana que mantém a entidade viva.
Os diretores ajudam a definir os caminhos. Os associados conferem legitimidade à caminhada. E os associários fazem com que ela aconteça todos os dias.
Celebrar cem anos é reconhecer os fundadores que acreditaram, os dirigentes que serviram, os associados que confiaram, os colaboradores que executaram e os empreendedores que, mesmo diante das dificuldades, continuaram abrindo suas portas, gerando empregos e acreditando em Três Lagoas.
Ao completar seu primeiro século, a ACITL não chega ao fim de uma jornada. Começa uma nova etapa. Os próximos anos trarão desafios tão profundos quanto aqueles enfrentados pelos pioneiros: transformação digital, inteligência artificial, sustentabilidade, novos modelos de trabalho e mudanças no comportamento dos consumidores.
As respostas não estarão apenas na tecnologia. Estarão, novamente, nas pessoas e em sua capacidade de cooperar. A instituição que soube atravessar os trilhos, Jupiá, a industrialização e o Vale da Celulose saberá atravessar as transformações do futuro, desde que permaneça fiel à sua essência: representar, unir e desenvolver.
Este livro preserva a memória, mas não convida à nostalgia. Ele nos permite olhar para trás, compreender de onde viemos e escolher, com maior consciência, o caminho que desejamos seguir.
Que sua leitura desperte gratidão por aqueles que vieram antes de nós, orgulho pelo que foi construído e coragem para continuar. E que as futuras gerações, ao abrirem o livro dos duzentos anos desta Associação, reconheçam que a geração do centenário compreendeu a responsabilidade que recebeu e soube estar à altura de seu tempo.
Escrevo estas palavras com emoção, gratidão e profundo senso de pertencimento.
Porque a ACITL não é apenas parte da história de Três Lagoas.
Ela é parte da minha história.
E tenho a honra de também fazer parte da sua.
Fabrício Garcia do Nascimento
Vice-Presidente da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas – ACITL
Três Lagoas, 2026
A linha do tempo da ACITL
Sete marcos que atravessam um século de história — da fundação em 1926 ao centenário em 2026.
"A história da ACITL é a história do desenvolvimento econômico de Três Lagoas."
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