Consolidação Comercial e Pecuária
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Ciclo II1940 – 1960

Consolidação Comercial e Pecuária

Enquanto a pecuária fortalecia a economia regional, o comércio consolidava Três Lagoas como polo de abastecimento do leste do antigo Mato Grosso. Em meio aos desafios do pós-guerra, a Associação Comercial manteve vivo o espírito do associativismo graças à dedicação de empresários que compreenderam que nenhuma cidade prospera sem união.

Ao chegar à década de 1940, Três Lagoas já havia superado sua condição de pequeno povoado ferroviário. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil continuava sendo o principal eixo de ligação com os grandes centros do país, mas a economia local encontrava na pecuária sua principal fonte de riqueza. As extensas áreas de Cerrado, a disponibilidade de água e a facilidade de transporte proporcionada pela ferrovia favoreceram a expansão das fazendas de criação de gado bovino. A atividade pecuária consolidou-se como o motor econômico da região, impulsionando um comércio cada vez mais diversificado.

O cotidiano da cidade girava em torno da produção rural. Caminhões carregados de animais, tropas, compradores, viajantes e produtores movimentavam as ruas centrais, enquanto armazéns, farmácias, ferragens, casas de tecidos, hotéis, oficinas, selarias e casas de secos e molhados atendiam tanto à população urbana quanto aos moradores das fazendas espalhadas pelo antigo Mato Grosso. Três Lagoas consolidava-se como um importante centro de abastecimento regional.

O crescimento da pecuária trouxe estabilidade econômica. As tradicionais casas comerciais ampliaram seus negócios e passaram a oferecer uma variedade crescente de produtos. Muitas delas tornaram-se referências para toda a região. Casas como a Casa Barateira, Casa Portuguesa, Casa Oliveira, Casa Moderna, Casa A Preferida, Casa Sertaneja, além de farmácias, hotéis e pequenas indústrias familiares, ajudaram a formar a identidade econômica de Três Lagoas. Mais do que estabelecimentos comerciais, esses empreendimentos eram pontos de encontro da comunidade. Era ali que circulavam notícias, eram fechados negócios, organizavam-se iniciativas coletivas e discutiam-se os rumos da cidade. Foi justamente nesse ambiente que a Associação Comercial consolidou sua importância como espaço de diálogo entre empresários e lideranças locais.

Durante a década de 1940, a Associação Comercial ampliou significativamente sua atuação. Sob a presidência de Abrahão Matar, proprietário da tradicional Casa A Preferida, a entidade passou a participar ativamente das iniciativas voltadas ao desenvolvimento do município. Em um gesto que simboliza seu compromisso com a comunidade, a sede da Associação foi cedida para as reuniões que deram origem à Liga Três-lagoense de Desporto (L.T.D.), demonstrando que a entidade já ultrapassava a defesa exclusiva do comércio e contribuía para o fortalecimento da vida social da cidade.

Na administração seguinte, presidida por Eurídice Chagas Cruz, proprietário da Farmácia do Cruz, a Associação participou de outro momento marcante da história local: o lançamento da pedra fundamental do edifício da Prefeitura Municipal. Em nome dos comerciantes, foi assinada uma mensagem de apoio ao empreendimento, reforçando o compromisso da entidade com o crescimento urbano e institucional de Três Lagoas. Mesmo ainda jovem, a Associação Comercial já se consolidava como uma das instituições mais respeitadas da cidade.

O término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, trouxe mudanças para toda a economia brasileira. Embora distante dos campos de batalha, Três Lagoas também sentiu os reflexos do período. O comércio enfrentou dificuldades, o ritmo dos negócios diminuiu e muitos empresários passaram a concentrar seus esforços na manutenção de suas próprias atividades. Esse cenário refletiu-se diretamente na Associação Comercial. No final do mandato de Antônio de Carvalho, proprietário da Casa Sertaneja, o desinteresse em assumir a presidência tornou-se evidente. Havia poucos empresários dispostos a dedicar tempo à administração da entidade, cuja atuação era voluntária e exigia grande comprometimento.

Para evitar que a sede fosse abandonada ou invadida, Antônio de Carvalho tomou uma decisão curiosa: convidou o maestro Tertuliano de Lima, conhecido por comandar a tradicional Banda Furiosa, para residir no imóvel e cuidar de sua conservação. Graças a essa iniciativa, o patrimônio da Associação foi preservado durante um dos momentos mais delicados de sua existência.

Durante aproximadamente treze anos, entre o final da década de 1940 e o início da década de 1960, a Associação Comercial praticamente deixou de realizar eleições regulares. Isso, porém, não significou o desaparecimento da entidade. Sempre que o comércio sofria pressões fiscais, novas cobranças de impostos ou dificuldades impostas pelo poder público, três empresários assumiam espontaneamente a responsabilidade de representar os comerciantes: Calil Salomão Abud, Michel Thomé e João Antônio Saran. Eles não buscavam prestígio nem reconhecimento. Assumiam a presidência apenas quando a cidade precisava de uma liderança capaz de defender os interesses do comércio.

A forma como isso acontecia tornou-se uma das histórias mais curiosas da memória da ACITL. Segundo relato do próprio João Antônio Saran, alguns comerciantes convidavam um dos três para 'dar uma volta' até a Lagoa Maior. Durante a caminhada, lavravam uma ata improvisada nomeando-o presidente da Associação Comercial. Terminada a missão, o livro de atas era destruído para evitar que aquela nomeação permanecesse formalizada, obrigando a realização de um novo ato sempre que surgisse outra necessidade. João Antônio Saran chegou a afirmar que foi presidente 'pelo menos quatro vezes', embora jamais tenha sido possível determinar exatamente quantos mandatos exerceu. Essa história, quase lendária, revela muito mais do que uma curiosidade institucional. Mostra que a Associação Comercial jamais deixou de existir. Mesmo sem eleições formais, sem estrutura administrativa e sem recursos financeiros, ela continuou viva porque havia empresários dispostos a defendê-la.

Ao final da década de 1950, Três Lagoas encontrava-se consolidada como um dos principais polos pecuários do antigo Mato Grosso. O comércio era forte, a ferrovia continuava movimentando pessoas e mercadorias e a Associação Comercial permanecia como referência para os empresários locais. Mas uma transformação muito maior aproximava-se. No Rio Paraná, iniciavam-se os estudos e as primeiras obras que dariam origem ao Complexo Hidrelétrico de Urubupungá, especialmente à futura Usina Engenheiro Souza Dias (Jupiá). A cidade estava prestes a viver o maior salto econômico de sua história. E a Associação Comercial, fortalecida pela coragem e perseverança de seus dirigentes, encontrava-se preparada para liderar uma nova etapa do desenvolvimento regional.

Memória viva

Figura 1 – Ata nº 1 da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas (página 1).

Fonte: Acervo da ACITL, 2026.

Primeira página da Ata nº 1, lavrada em 31 de janeiro de 1960, que registra a Sessão Solene de Posse do Conselho Consultivo e da Diretoria da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas, marco da reorganização institucional da entidade após o período dos 'Três Mosqueteiros'.

Memória viva

Figura 2 – Ata nº 1 da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas (página 2).

Fonte: Acervo da ACITL, 2026.

Segunda página da Ata nº 1, com o registro dos discursos, a constituição do Conselho Consultivo eleito em Assembleia Geral e a assinatura da diretoria empossada, documento que oficializa a retomada formal das atividades da Associação em 1960.

Memória viva

Figura 3 – Foto dos Três Mosqueteiros (1947 — 1960).

Fonte: Acervo da ACITL, 2026.

Registro dos empresários Calil Salomão Abud, Michel Thomé e João Antônio Saran, que mantiveram viva a Associação Comercial entre 1947 e 1960 através de uma liderança voluntária e itinerante, num dos capítulos mais singulares da história institucional da ACITL.

Centenário

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