A Era Jupiá e a Modernização da Cidade
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Ciclo III1960 – 1974

A Era Jupiá e a Modernização da Cidade

Quando as águas do Rio Paraná começaram a mover as turbinas da Usina de Jupiá, Três Lagoas iniciou uma das maiores transformações econômicas de sua história. A cidade cresceu, o comércio se fortaleceu e a Associação Comercial reorganizou-se para representar uma nova realidade empresarial.

A maior transformação econômica da cidade. A década de 1960 representa um divisor de águas na história de Três Lagoas. Até então, o município havia construído sua economia sobre três pilares fundamentais: a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a pecuária e o comércio regional. A construção da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias, conhecida como Jupiá, alterou definitivamente esse cenário.

Integrante do Complexo Hidrelétrico de Urubupungá, a obra teve início em 1960, entrou em operação em 14 de abril de 1969 e foi oficialmente inaugurada em 1974. Com capacidade instalada de 1.551.200 kW, tornou-se uma das maiores usinas hidrelétricas do país à época, posicionando Três Lagoas em um novo contexto econômico e estratégico nacional.

Além da geração de energia, Jupiá integrou o sistema hidroviário do Rio Paraná às rodovias do Centro-Oeste e do Estado de São Paulo, criando condições para uma nova dinâmica de desenvolvimento regional.

Jupiá transforma Três Lagoas. A construção da usina provocou um intenso fluxo migratório. Cerca de dez mil trabalhadores, entre engenheiros, técnicos, operários e prestadores de serviços, chegaram à região durante o período das obras. Esse crescimento populacional acelerou a expansão urbana e modificou profundamente a economia local. Novos bairros foram implantados, a demanda por moradias aumentou e o comércio precisou adaptar-se rapidamente às necessidades de uma cidade em plena transformação.

Hotéis, pensões, restaurantes, farmácias, mercados, lojas de roupas, oficinas mecânicas, transportadoras, materiais de construção e serviços bancários ampliaram significativamente suas atividades. Pela primeira vez, o comércio três-lagoense deixava de atender predominantemente uma economia ferroviária e agropecuária para responder às demandas de um grande empreendimento nacional de infraestrutura. O aumento da circulação de pessoas, mercadorias e recursos financeiros impulsionou o desenvolvimento econômico, mas também trouxe novos desafios para empresários e comerciantes.

A reorganização da Associação Comercial. O crescimento acelerado da cidade exigiu uma atuação mais organizada da representação empresarial. A memória institucional da ACITL registra que, com o início da construção da Usina de Jupiá, o comércio local experimentou forte expansão, enquanto o poder público intensificava a fiscalização sobre as atividades econômicas. Diante desse novo cenário, tornou-se indispensável reorganizar a Associação Comercial para fortalecer a defesa dos interesses do setor produtivo.

Em 1960, Cornélio Reis Costa, proprietário da Máquina de Arroz e Comercial Bello, convocou uma reunião na Câmara Municipal que marcou a reorganização oficial da entidade. Ele assumiu a presidência e iniciou um novo período da Associação Comercial de Três Lagoas. Mais do que reorganizar administrativamente a instituição, sua gestão devolveu protagonismo à representação empresarial em um momento decisivo para o desenvolvimento econômico da cidade.

Cornélio Reis Costa: o presidente da retomada. Após um período marcado pelo esforço de lideranças que mantiveram a entidade ativa em circunstâncias adversas, Cornélio Reis Costa representa o retorno da Associação Comercial à atuação institucional organizada. Sua gestão simboliza o reencontro da entidade com sua missão original: representar coletivamente os empresários, defender seus interesses e acompanhar as profundas transformações econômicas vividas por Três Lagoas. Enquanto a cidade se modernizava, a Associação voltava a ocupar posição estratégica nas discussões sobre desenvolvimento econômico.

O reconhecimento como Utilidade Pública. O fortalecimento institucional da Associação Comercial foi reconhecido oficialmente em 1964. Durante a presidência de Dulcindo da Costa Dias, proprietário da Farmácia do Dulcindo, foi aprovada a Lei Municipal nº 244, de 21 de dezembro de 1964, declarando a Associação Comercial de Três Lagoas como entidade de Utilidade Pública. O reconhecimento representou muito mais do que um ato administrativo: a partir daquele momento, a Associação passou a ser reconhecida como instituição de interesse coletivo, capaz de contribuir para o desenvolvimento econômico e social do município.

Novas lideranças. A segunda metade da década de 1960 trouxe acontecimentos marcantes para a história da entidade. Em 1966, Argemiro Cardim, gerente das Lojas Arapuã, assumiu a presidência, tornando-se o primeiro dirigente da Associação que não era proprietário de empresa. Sua administração também ficou marcada por um fato incomum: transferido para a cidade de Lins, no interior paulista, Argemiro deixou a presidência antes do término do mandato. Em vez de o vice-presidente assumir, quem concluiu a gestão foi o tesoureiro Argemiro Lopes de Souza, proprietário da Livraria A Imperatriz. A própria memória institucional registra esse episódio com bom humor, afirmando que, naquela administração, “quebrar regras era a regra”. O episódio demonstra uma entidade em reconstrução, mas suficientemente dinâmica para adaptar-se às circunstâncias sem interromper sua atuação.

José Scaransi e a defesa do patrimônio. Em 1968 iniciou-se a gestão de José Scaransi, proprietário do Bar Esporte, cujo principal desafio foi preservar o patrimônio da Associação Comercial. A antiga sede encontrava-se envolvida em um processo judicial de usucapião, situação que mobilizou grande parte de sua administração. Embora a disputa não tenha sido solucionada naquele momento, Scaransi manteve viva a defesa do patrimônio institucional, preparando o caminho para as decisões que seriam tomadas nos anos seguintes. Enquanto Três Lagoas ampliava sua infraestrutura urbana, a Associação lutava para garantir a preservação de sua própria história.

Três Lagoas como área estratégica nacional. A importância adquirida por Três Lagoas durante esse período extrapolou o aspecto econômico. Em 1970, durante o regime militar, o município foi classificado como área de interesse da Segurança Nacional, conforme o Decreto-Lei nº 1.105. A proximidade da Usina de Jupiá e sua importância para o sistema energético brasileiro conferiram à cidade posição estratégica para o país. Durante esse período, os prefeitos passaram a ser nomeados pelo Governo Federal, reforçando o papel de Três Lagoas como município estratégico para o desenvolvimento nacional.

O legado de Jupiá. Ao final de 1974, Três Lagoas era uma cidade completamente diferente daquela existente no início da década de 1960. A economia havia se diversificado, o comércio alcançara novo patamar de desenvolvimento e a população crescera rapidamente. A Associação Comercial também saía fortalecida desse processo. Reorganizada, reconhecida como entidade de Utilidade Pública e novamente integrada às principais discussões sobre o desenvolvimento econômico local, a instituição encontrava-se preparada para enfrentar novos desafios. A transformação provocada por Jupiá não se limitou à geração de energia: ela inaugurou uma nova etapa da história econômica de Três Lagoas e criou as condições para que, nos anos seguintes, a Associação Comercial promovesse sua própria modernização institucional.

Memória viva

Figura 1 – Usina Hidrelétrica Jupiá.

Fonte: Imobiliária Amplace, 2026.

Vista aérea da construção da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias (Jupiá) no Rio Paraná, marco da modernização regional que atraiu milhares de trabalhadores e impulsionou a economia de Três Lagoas nas décadas de 1960 a 1980.

Memória viva

Figura 2 – Construção da Usina Hidrelétrica Jupiá.

Fonte: Jornal Impacto.

Imagem histórica da construção da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias (Jupiá), mostrando as estruturas em concreto, guindastes e a intensa movimentação de trabalhadores e equipamentos durante a obra que transformou a economia de Três Lagoas.

Memória viva

Figura 3 – Usina Hidrelétrica Jupiá nos dias atuais.

Fonte: Prefeitura de Três Lagoas.

Vista contemporânea da Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias (Jupiá), operada pela CTG Brasil, mostrando a estrutura atual, as comportas e o vertedouro sobre o Rio Paraná.

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